Mudaram também as amigas. Que bom! Mudaram as brincadeiras. Mudou-se a idade. Mudou o ambiente em que eu crescia. Mudou a casa, a escola, o turno e até a ocupação. Mas o que de fato, não mudou, durante todas essas mudanças, era minha necessidades de mudar. Não a vida. Não as pessoas. Mas as minhas coisas. No sentido material de serem.
Trocava de roupas com as amigas. Mudava as calças jeans da Levi's que minha tia me presenteava, e que eu, teimava em corta-las e enchê-las de adereços. Mudava meu estilo. Trocava de mochila com as colegas. De estojo. De canetas.
Mas o que mais mudou na minha vida, foram meus quartos. Coitada de minha mãe, que não sabia mais como esconder os riscos do assoalho do apartamento que alugamos. Eu trocava tudo de lugar. As roupas do guarda-roupa. O guarda-roupa. A escrivaninha. A cama, principalmente. E em cada uma dessas mudanças, mudavam-se a disposição dos quadros, posteres e fotos na parede. Coisas que também mudavam com frequência.
Quando sai de casa e fui morar só, estava como o diabo gostava. Lembro que quando me mudei pro 402 mudei meu quarto umas 18 vezes. Até, mudar de quarto. Passei pro da frente. E junto, mudei a visão da janela. Coisa boa foi poder se trocar sem se preocupar com a antiga janela que não tinha cortina.
Depois mudei de AP. Fui morar sozinha. E meu quarto, naquela época, era quarto, sala, cozinha e lavanderia. Meu Deus. Quantas mudanças mais aquele 204 presenciou. Morando sozinha, sem internet, e quase abandonada, quando batia deprê, eram os móveis que sofriam. A cada nova mudança... um novo ambiente. Parecia que eu sempre morava em lugares diferentes. Na verdade, parece que já morei em bem mais lugares que na verdade morei.
Depois me mudei novamente, ainda na faculdade. Fui para uma casa. Com uma sacada enorme. Com um ambiente agradável. Lá eu não podia mudar muito as coisas. Meu computador precisava ficar sempre no mesmo lugar senão o fio da então internet, que finalmente conquistei, não alcançava. Sofri com isso. Achava que aquele canto era perfeito para a minha cama. Ainda continuo achando e me arrependendo de não ter feito uma extensão naquele fio. Mas já era...
Dai vim pra cá. Não-Me-Toque. Acho que essas deveriam ser as palavras que meus móveis desejavam me falar. Coitados. Não sei como ainda não despencaram. Claro que, de lá pra cá, algumas coisas foram substituídas. Mudanças, né? Mas eu continuo mudando tudo de lugar. E pelo pequeno tamanho de meu quarto, nem sei como eu consigo encabeçar tantas mudanças possíveis. Mas eu consigo. Criatividade, na verdade, nunca me faltou.
Minhas companheiras de casa já sabem. Se tem alguma coisa se arrastando a noite, devem ser os móveis da Cissa. Se algo na casa muda do dia pra noite, foi a Cissa. Sem dúvida. Mas que culpa eu tenho de ser tão apegada as mudanças? Quem gosta, afinal, de estar sempre no mesmo ambiente, com a mesma cara pálida que suplica por uma variação? Se você sim, parabéns! Mas não venha me ensinar. Eu ainda prefiro meus dias de radicalizar e fazer do inusitado o mais novo companheiro.
Rezo hoje, ainda, para que meu guarda-roupas não despenque, para que minha cama não quebre e para que meu colchão aguente mais uns meses de pindaíba. Porque quando der, mudo ele também!