24 de dezembro de 2008

Nunca Diga Nunca


Por Cadré Dominguez - Professor de Jornalismo Ufsm-Cesnors

Passar por cima das dificuldades. E elas sempre - diariamente - vão colocar-se na sua frente. Não tem jeito. Elas são onipresentes. Problemas e jornalistas andam juntos. Por que é assim que tem de ser? Acredito que sim. Sem conflito, o jornalismo se esvazia de sua função social. Não que ser jornalista seja um recolher eterno de conflitos. Nem sempre. Mas, na maioria das vezes sim.

O repórter de verdade, daqueles que fareja notícias pelas ruas em situações de aparente nornalidade, sabe que as relações humanas são movidas por vaidades, alegrias, medos, anseios, divertimentos. E a busca por estes sentimentos ou os fatos que decorrem deles, muitas vezes, são permeados por problemas e conflitos.

E a dificuldade do jornalista - diária - é entrar nestes mundos munido apenas de sua bagagem cultural e um bloquinho de anotações. Mesmo no mundo da convergência entre televisão, internet e rádio existe aquele momento de contato direto do repórter e a fonte. E neste ponto, existem dificuldades. Muitas. As pessoas entrevistadas não querem falar, não confiam no repórter, não falam a verdade, evitam assuntos espinhosos, confundem fatos distintos, tiram proveito pessoal da situação, revelam interesses escusos ou escondem interesses inconfessáveis. E por ai vai. Todo mundo tem uma história.

E a maneira como estas dificuldades são superadas é que revelam de que é feito o repórter. É um mundo sútil e nebulosos. Uma teia de interesses, complexa e de difícil compreensão para quem olha de fora. Mas o repórter consegue. Mostra a sociedade aquilo que ela não vê ou busca não enxergar. E só faz isso se trabalha muito. É o que se chama de apuração. Pode levar dias. Mas se obtém um relato coerente sobre o acontecido.

Qualquer acontecimento pode ser relatado pela técnica jornalística. Depende só do repórter.
Para piorar, além de tudo que cria dificuldades para o lado de fora da redação, somam-se os problemas e desafios internos de trabalhar em uma empresa (na maioria das vezes privada) que tem uma direção administrativa com interesses próprios, balizados pelo mercado. A batalha interna - também diária - de conseguir espaço, estrutura, equipamento, tempo, horas de trabalho para produzir o melhor conteúdo jornalístico é tão árdua quanto a externa. Não, não é fácil ser jornalista. Mas é muito bom.

É bom para quem é curioso. É bom para quem é crítico. É bom para quem quer entender como as coisas acontecem. Como as pessoas reagem a ciranda de acontecimentos que afetam suas vidas. É bom para quem sabe quem existem muitas pessoas que não são ouvidas e que muitas histórias não são contadas. É bom para os que não desistem.

E existem cursos de jornalismo. Eles tem a inglória missão de preparar em exíguos quatro anos um jovem de 18 e poucos anos para trabalhar neste cenário. Dotá-los de subsídios teóricos e práticos que lhe forneçam instrumentos para sobreviver a força bruta da vida real. E publicar relatos que afetam a vida de milhares (as vezes milhões) de pessoas. Que podem transformar a vida de um Zé Ninguém no centro das atenções nacionais, estaduais ou municipais. As vezes, até mundial. Que podem significar o atendimento público digno para quem precisa de saúde, educação, esporte, ambiente, emprego. Pode até significar comida para quem tem fome.

E os sábios senhores de Brasília influenciados pelos todos poderosos donos de empresas de comunicações, associações de sabe lá o quê com sabe lá quem, querem diminuir o tamanho dos cursos de jornalismo. Que sejam apenas dois anos, propôs o Ministro da Educação Fernando Hadad, pois o que importa é a liberdade de expressão. Por conta dos mesmo lobby sombrio, está com o Supremo Tribunal Federal a decisão da manutenção ou não da obrigatorieddae do diploma para exercer o ofício de jornalista. É difícil. É muito difícil ser jornalista. Mas é muito bom, por que se não assim fosse os esqueletos continuariam dentro do armário e a sujeira eternamente seria varrida para dentro do tapete.

Ser repórter é nunca dizer nunca. Nunca dizer sempre.

Dos critérios de Noticiabilidade

Jornalistas têm a incrível mania de pensar que tudo o que eles julgam importante para eles, seja, de fato, importante para nós. Triste consciência. Mal sabem eles, que cada vez menos folheamos as páginas dos jornais para nos informar. Mas espera ai? Se isso está realmente acontecendo, podemos afirmar veemente uma coisa, algo está errado!

Já dizia Ricardo Noblat, em seu livro: A Arte de Fazer um Jornal Diário. “A notícia está no curioso, não no comum; no que estimula conflitos, não no que inspira normalidade; no que é capaz de abalar as pessoas, estruturas, situações, não no que apascenta ou conforma; no drama e na tragédia e não na comédia e no divertimento”.

Ele está coberto de razão. É isso o que nós jornalistas colocamos todos os dias nos cardápios de notícias. Isso e somente isso. E talvez, seja por isso que, cada vez menos, atraímos a atenção de vocês, leitores. Mas o que fazer e o que mudar?

Para descobrir isso, me propus ser igual. Agora sou um leitor. Pronto, decidido. Deixei de lado a carreira de jornalista para me colocar a pensar como um ser aparentemente normal. Agora, como consumidor de um produto da mídia, me pergunto: “O que de fato é importante pra mim? O que eu gostaria de ler todos os dias nos jornais que abro?”.

Será que eu saber como anda a crise das bolsas de valores. E somente isso, é importante? Ou, seria mais proveitavel, saber de que forma esse acontecimento me atinge? Pois bem, a proximidade das informações que eu recebo e a maneira como ela modifica a minha rotina e a minha vida, conta muitos pontos na hora de eu decidir se devo ou não gastar meu tempo, e meus olhos, numa leitura silenciosa.

Os critérios de noticiabilidade são importantes, porque aí já se excluem, informações que não possuem relevância para mim e para a sociedade em que vivo. Além da proximidade, da relevância e do local, acredito que cada vez mais, assuntos sobre comportamento humano, sexo, relacionamento, beleza e moda, estejam tomando parte da rotina das pessoas. Isso as atinge diretamente. E é isso que elas procuram, relação entre o que se diz e o que se quer saber.

Crises, roubos, violência, drogas, fraudes, guerras, CPI’s, as noticias “ruins” também fazem parte de nosso dia-a-dia. Sendo assim, não podemos negar a importância em saber o que de negativo nos rodeia. E é imprescindível termos todos os dias informações sobre tudo isso, mas claro, de uma forma que nos atinja. Que nos faça pensar e refletir para, no mínimo, tentar mudar.

Até onde se sabe, o jornalismo detêm uma função social, que busca provocar mudanças na realidade da sociedade, e isso só é possível quando a proximidade dos fatos faz com que o leitor sinta a necessidade de intervir.
Esses critérios podem variar de região para região. De veiculo para veículo. Não se deve ter um único molde como modelo. Diferentemente das mídias instantâneas, como a internet e o rádio, que atualizam de minuto a minuto suas noticias, informando o que aconteceu, o jornal impresso, não pode trazer as mesmas coisas que esses meios trazem. Ele precisa aprofundar-se na matéria. Explicar ao leitor o contexto dos fatos e interpreta-los muitas vezes.

E é isso que faz o leitor não somente saber do fato, mas principalmente entende-lo. Uma pessoa que tem acesso a muitas notícias, pode não ser tão bem informada quanto as que tem o embasamento da informação.

Mas olha só, até que não me sai mal na observação. Pensando bem, é mais fácil enxergar tudo isso aqui do outro lado. Na carreira que eu escolhi é muito difícil ter uma rotina de produção que seja sempre lucrativa de boas matérias. A maioria dos profissionais desempenham várias funções dentro da mesma empresa. Sobra pouco tempo para se por em prática a criatividade, à pesquisa e a apuração de qualidade. Mas isso não é desculpa para nos tornarmos jornalistas medíocres. A Paixão pelo que se faz é fundamental numa profissão e é ela quem assegura qualidade nos trabalhos.