13 de abril de 2012

A gente se acostuma...

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e a não ter outra vista que não seja as janelas ao redor. E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.

E porque não abre as cortinas logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E a medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar café correndo porque está atrasado. A ler jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá pra almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra, aceita seus mortos e que haja número para os mortos. E aceitando os números aceita não acreditar nas negociações de paz. E não aceitando as negociações de paz,aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração. A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir.

A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. A lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e a ver cartazes. A abrir as revistas e a ver anúncios. A ligar a televisão e a ver comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos. A gente se acostuma à poluição.

Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável.
À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios.

Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta. A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer.

Em doses pequenas, tentando não perceber, vai se afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada a gente só molha os pés e sua no resto do corpo.

Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida que aos poucos se gasta e, que gasta, de tanto acostumar, se perde de si mesma.

(Marina Colassanti)

9 de março de 2012

do que um homem precisa ser.

antes de qualquer coisa, um homem precisa ter atitude.
atitude, alias, deveria ser o primeiro adjetivo do sexo masculino.
um homem precisa ter coragem. pra dizer o que gosta, o que não gosta e fazer o que tem vontade.
um homem precisa ter respeito com seus valores, com sua mulher e com seus compromissos.
homem precisa ser inteligente, prático e criativo.
um homem precisa ser autentico e leal. precisa ser merecedor.
um homem precisa ser vencedor naquilo que deseja. 
um homem precisa ser interessante.
um homem precisa saber conquistar uma mulher.
um homem precisa saber conquistar a sua mulher todos os dias.
um precisa ser esperto para ter o que deseja e bom para mantê-lo.
um homem precisa ser corajoso para falar sobre seus erros e convincente para defender suas qualidade.
um homem até pode ser galinha, desde que deixe isso bem claro.
um homem precisa ter dinheiro para levar uma menina tomar um sorvete, não para o restaurante mais caro da cidade. 

um homem só precisa ser interessado em agradar quem ama.
um homem precisa entender que certas atitudes fazem a diferença sem arrancar pedaço.
um homem precisa saber escrever algo romântico as vezes, e dizer as palavras certas quando precisa.
um homem precisa ser bom para ter alguém do seu lado, e melhor ainda para não perdê-la.
um homem precisa ser preocupado com a aparência. ser cheiroso. ser charmoso.
um homem precisa ser misterioso, não meticuloso.
um homem precisa ter o coração quente.
um homem precisa ser engajado e apoiar as causas que defende.

um homem não precisa ser tudo isso, afinal, desde que seja 90%.
enfim, um homem só precisa ser alguém que faça a diferença. que saiba elogiar,
que saiba esperar, que saiba ser imprescindível.



5 de março de 2012

monólogos.

Lourenço:
“Ninguém entra num mesmo rio uma segunda vez. Pois quando isso acontece já não se é o mesmo, assim como as águas que já serão outras. Foi um filósofo grego que viveu no século V AC (século quinto Antes de Cristo), Eráclito de Éfeso, quem fez essa formulação que até hoje nos fascina: ‘o fluxo eterno das coisas, é a própria essência do mundo’, apontou Eráclito.
E se ainda hoje ficamos espantados com isso é porque nos apegamos teimosamente ao que já passou, esperando no fundo que tudo permaneça igual.
Então, é necessário um filósofo da antiguidade ou um escritor contemporâneo pra nos fazer entender que nada é permanente, a não ser a mudança.
Olha só, eu separei aqui um trecho do ‘Grande Sertão’ onde o Guimarães Rosa, fala um pouco sobre isso, olha só que beleza:
“O mais importante e bonito do mundo é isto, que as pessoas não são sempre iguais, ainda não foram terminadas, mas que elas vão sempre mudando, afinam ou desafinam, verdade maior. É o que a vida me ensinou...”
Não é incrível?
O filósofo flagra a fluidez e o escritor se maravilha com isso.
“É o mais bonito da vida”, diz Guimarães Rosa.
É uma celebração do movimento, não é um lamento. O tempo não pára. E isso é belo. Então, semana que vem, nós nos encontraremos aqui, e eu serei outro, e vocês também.”

(Personagem de Leonardo Medeiros, Lourenço, novela "A vida da Gente" - Autores: Lícia Manzo/Marcos Bernstein)

Iná:
“Quem teve o privilégio de viver muito, sabe que o tempo é um mestre muito caprichoso. Às vezes as suas lições são tão repentinas que quase nos afogam. Outras vezes elas se depositam devagar como a conta-gotas, diante da avidez de nossas perguntas. E por isso quem teve o privilégio de viver muito tempo, aprende a olhar com serenidade o turbilhão da vida. Amores ardentes se extinguem. Urgências se acalmam. Passos ágeis alentam. Enfim tudo muda. Muda o amor, mudam as pessoas, muda a família. Só o tempo permanece do mesmo modo, sempre passando... E é por isso que eu queria esta noite erguer um brinde a ele, que esculpiu no meu rosto e na minha alma a sua marca, da qual eu tanto me orgulho. Então, ao tempo!”

(personagem de Nicete Bruno, novela ‘A vida da gente’)

(Autores: Lícia Manzo/Marcos Bernstein)

2 de março de 2012

sobre a vida da gente.




Ainda comovida com o final da novela A Vida da Gente, me peguei aqui pensando em algumas coisas que acontecem em nossa vida sem que a culpa seja nossa ou causada por alguém. Tem certos momentos em que tudo conspira contra uma possível felicidade plena. E eles são muitos. A vida da gente nos ensinou que o destino é o senhor dos acontecimentos e que o tempo é sim o provedor de finais felizes. E que,por mais que possam haver idas e vindas em uma vida cheia de dúvidas, incertezas e sentimentos virados, a solidão não vai te ajudar a supera-las. Só supera seus problemas quem os enfrenta em convivência até o dia em que eles terminam ou se resolvem. Mas o mais importante de toda ou qualquer lição tirada dessa novela é que o que o amor constrói não há intervenção humana que possa findar.



5 de dezembro de 2011

trabalho é trabalho...


... diversão e stress.

Me peguei a pensar hoje, o que eu estaria fazendo da minha vida se não trabalhando até o esgotamento físico e mental?
Talvez estivesse vendo mais TV. Lendo aqueles livros que escanteei na minha estante ou, quem sabe, navegando um pouco mais em sites de entretenimento.
Quem sabe eu estaria fazendo alguns amigos, ou chorando a espera do namorado que só posso ver a cada três meses.
Quem sabe eu já estaria até solteira se não houvesse esses dias de trabalho incansável para me esgotar. É fato que ele acaba, inclusive, com minhas energias de sentir falta.
Tantas pessoas reclamam do trabalho que tem, dos que não têm. Enfim, reclamam quando fazem ou quando não fazem algo. Reclamam de suas vidas vazias ou cheias de responsabilidade.

Pela primeira vez na vida me vejo num lugar de visão privilegiada. Me vejo gostando do que tem ocupado meus dias e me feito tomar mais paracetamol que o normal.
Pela primeira vez estou achando bom não conseguir tirar os óculos do rosto, a caneta da orelha e os blocos de papel das mãos. Estou ocupada. E estar ocupada me faz criar além do que imaginava poder.

Senti falta destes dias desde quando não havia tempo suficiente para fazer tantos trabalhos acadêmicos. Que bom que hoje eles são diferentes, porque aquela rotina não era nada interessante mesmo.

Hoje, essa semana, este mês, posso enxergar meu trabalho fazendo a diferença. Isso me tornou mais simpática e mais comprometida com a responsabilidade que minha profissão impõe a minha rotina. As pessoas confiam no nosso trabalho. E quando mais confiança te depositam, mais responsável e cheio de tarefas você fica.

Enfim, o que quis dizer com todos esses parágrafos tortos é que trabalhar e bom. Engrandece a alma, torna o dia mais curto e te faz vivo. Afinal, sentir-se produtivo está alem de fazer o que lhe mandam. Está em surpreender, em resolver problemas e, ainda, deixar de lado a obviedade.

Trabalhem meus queridos, trabalhem.
Não precisa ser no emprego dos sonhos nem no projeto mais popular.
Trabalhem para se sentir útil ao mundo e as pessoas que confiam em você.
Porque o trabalho não enriquece a vida, mas enche de riquezas nosso conhecimento.

28 de novembro de 2011

Que livro eu seria?


Encontrei, de bobeira na internet, um teste muito bacana chamado: "Que livro você é?"
A resposta foi muito reveladora, e confesso, bastante verídica. Ainda não li o livro que sou, mas agora me obrigo!

Essa foi minha resposta:
"Memórias póstumas de Brás Cubas", de Machado de Assis

Ok, você não é exatamente uma pessoa fácil e otimista, mas muita gente te adora. É possível, aliás, que você marque a história de sua família, de seu bairro... Quem sabe até de sua cidade? Afinal, você consegue ser inteligente e perspicaz, mas nem por isso virar as costas para a popularidade - um talento raro. Claro que esse cinismo ácido que você teima em destilar afasta alguns, e os mais jovens nem sempre conseguem entendê-lo. Mas nada que seu carisma natural e dinamismo não compensem.

"Memórias póstumas de Brás Cubas" (1881) é considerado o divisor de águas entre os movimentos Romântico e Realista. Uma das expressões da genialidade de Machado de Assis (e de sua refinada ironia), há décadas tem sido leitura obrigatória na maior parte das escolas e costuma agradar aos alunos adolescentes. Já inspirou filme e peças de teatro. É, portanto, um caso de clássico capaz de conquistar leitores variados. Proezas de Machado.

Quer tentar a sua?
Acesse: http://educarparacrescer.abril.com.br/leitura/testes/livro-nacional.shtml

10 de novembro de 2011

Seu apartamento é feliz? - Martha Medeiros

“Há uma regra de decoração que merece ser obedecida: para onde quer que se olhe, deve haver algo que nos faça feliz!”

Dia desses fui acompanhar uma amiga que estava procurando um apartamento para comprar. Ela selecionou cinco imóveis para visitar, todos ainda ocupados por seus donos, e pediu que eu fosse com ela dar uma olhada. Minha amiga, claro, estava interessada em avaliar o tamanho das peças, o estado de conservação do prédio, a orientação solar, a vizinhança. Já eu, que estava ali de graça, fiquei observando o jeito que as pessoas moram.

Li em algum lugar que há uma regra de decoração que merece ser obedecida: para onde quer que se olhe, deve haver algo que nos faça feliz. O referido é verdade e dou fé. Não existe um único objeto na minha casa que não me faça feliz, pelas mais variadas razões: ou porque esse objeto me lembra de uma viagem, ou porque foi um presente de uma pessoa bacana, ou porque está comigo desde muitos endereços atrás, ou porque me faz reviver o momento em que o comprei, ou simplesmente porque é algo divertido e descompromissado, sem qualquer função prática a não ser agradar aos olhos.

Essa regra não tem nada a ver com elitismo. Pessoas riquíssimas podem viver em palácios totalmente impessoais, aristocráticos e maçantes com suas torneiras de ouro, quadros soturnos que valem fortunas e enfeites arrematados em leilões. São locais classudos, sem dúvida, e que devem fazer seus monarcas felizes, mas eu não conseguiria morar num lugar em que eu não me sentisse à vontade para colocar os pés em cima da mesinha de centro.


A beleza de uma sala, de um quarto ou de uma cozinha não está no valor gasto para decorá-los, e sim na intenção do proprietário em dar a esses ambientes uma cara que traduza o espírito de quem ali vive. E é isso que me espantou nas várias visitas que fizemos: a total falta de espírito festivo daqueles moradores. Gente que se conforma em ter um sofá, duas poltronas, uma tevê e um arranjo medonho em cima da mesa, e não se fala mais nisso. Onde é que estão os objetos que os fazem felizes? Sei que a felicidade não exige isso, mas pra que ser tão franciscano? Um estímulo visual torna o ambiente mais vivo e aconchegante, e isso pode existir em cabanas no meio do mato e em casinhas de pescadores que, aliás, transpiram mais felicidade do que muito apê cinco estrelas. Mas grande parte das pessoas não está interessada em se informar e em investir na beleza das coisas simples. E quando tentam, erram feio, reproduzindo em suas casas aquele estilo showroom de megaloja que só vende móveis laqueados e forrados com produtos sintéticos, tudo metido a chique, o suprassumo da falta de gosto. Onde o toque da natureza? Madeira, plantas, flores, tecidos crus e, principalmente, onde o bom humor? Como ser feliz numa casa que se leva a sério?

Não me recrimine, estou apenas passando adiante o que li: pra onde quer que se olhe, é preciso alguma coisa que nos deixe feliz. Se você está na sua casa agora, consegue ter seu prazer despertado pelo que lhe cerca? Ou sua casa é um cativeiro com o conforto necessário e fim?

Minha amiga ainda não encontrou seu novo lar, mas segue procurando, só que agora está visitando, de preferência, imóveis já desabitados, vazios, onde ela possa avaliar não só o tamanho das peças, a orientação solar, o estado geral de conservação, mas também o potencial de alegria que os ex-moradores não souberam explorar.”

Coluna da Martha Medeiros - jornal Zero Hora - domingo, 24/01/2010