2 de outubro de 2011

Do porque de escolher o jornalismo.

Meu nome já surgiu por inspiração poética. Érico Veríssimo foi quem deu vida a personagem com meu nome e a partir dela e de sua envolvente história minha mãe se inspirou. Inspiração sempre esteve presente em mim. Desde os primeiros anos de vida tinha em mim a certeza de que algo artístico faria parte de minha construção humana. Lembro de querer ser cantora. Talento me faltou para tanto. Não nasci com perfil de modelo, um desgosto para meus aspirantes 15 anos que sonhavam muito além. Encontrei na dança uma forma de extravasar a energia que sempre tinha a dar, vender, ou alugar, se necessário fosse. Mas a carreira não vingou.

Depois de diversas tentativas frustradas de querer ser alguém visível, que servisse de inspiração e de exemplo conheci o papel e a caneta. Foi com essas duas armas que consegui me encontrar. Afinal, a cada nova linha rabiscada me inventada e reinventada. Ali, no papel, eu podia ser quem eu queria e atingir quem quer que, pelo menos, tivesse interesse em ler profanas utopias.

Lembro de diversos momentos em que, sem saber como agir, escrevia. Não tinha medo do que fosse ser lido. Tinha medo de falar. Minha mão sempre teve menos pudor que minha boca. Foi com minhas mãos que conquistei muitas coisas na vida. Conquistei meu segundo grau, com louvor em português e literatura. Era fato, eu gostava da coisa. Foi com meus escritos que conquistei meu primeiro namorado, tenho certeza. Foi com elas, também, que passei no vestibular. Afinal, muito mais do que marcar questões, elas me ajudaram a pontuar cada pensamento.

Quando entrei para a faculdade de jornalismo aprendi que minhas mãos precisavam de aliados com credibilidade. Foi assim que me apaixonei pela leitura incessante de livros da área. Lia todos. Lia muito. Os que não lia folhava, com elas, as mãos. Sentir os livros já me fazia entender as coisas de uma maneira mais clara.

Abri minha cabeça durante esses quatro anos de estudo. Abri também meus braços e tentei trazer para mais perto de mim tudo que julgava importante. Agarrei com mãos, unhas e dentes, a maior parte dos projetos que chamei para mim. Eu amava o que fazia.

Assim como as mãos, que são duas, acho que o que sempre me chamou mais atenção no jornalismo foi a dualidade das coisas. Tudo tem sempre dois lados. Sempre tem de se ouvir as duas partes. Há sempre uma verdade, mesmo que não seja absoluta. E você pode estar do lado dela ou não. Isso sempre vai depender da tua capacidade.

A dualidade entre ter ou não rotina na profissão era o que me intrigava, de verdade. Ser jornalista é não ter horário. É não poder escolher onde e o que vai acontecer, apenas acompanhar. Acompanhar e apurar.

Outro par que me levou a escolher o jornalismo foi o de ouvidos. Ah como eu gosto de uma história. Muita paciência para ouvi-las, nenhuma para contá-las. A não ser que seja no papel, é claro. O papel não me corta no meio do raciocínio. Ali eu posso contar, tudo, na forma, na seqüência e com as palavras que gosto de usar.

Nunca quis ser jornalista para poder mudar o mundo. Também nunca fui inocente de acreditar que isso seria possível. Queria ser jornalista para mudar a mim mesma. Mudar o ritmo da vida, dos dias, das horas. Mudar os personagens do meu livro de memórias. Não mudo, apenas a realidade, porque no jornalismo aprendi que isso não é ético. Falando em ética, é por ela, também, que escolhi o jornalismo. Ser jornalista é uma das profissões que mais te cobra isso e que mais transparentemente pode-se mostrar e separar quem é de quem não é. Jornalista tem telespectador não fã.

Foi no jornalismo que aprendi a ser criativa e a não ter medo de ousar nem de desafiar o desconhecido. Foi no jornalismo que aprendi a ser curiosa e ter humildade. É durante as praticas diárias do exercício que escolhi para chamar de meu que eu vejo que, em nenhum momento, eu fiz a escolha errada.

Jornalismo não é inspiração e só. Jornalismo é liberdade de se deixar levar pela magia do momento. Inspiração dá e passa. Jornalismo fica. E só o que for de verdade permanece. Só o que é palpável nos preenche.

E apesar de ser palpável jornalismo não é algo que pode ser pego com as mãos, apesar de que é com elas, que se faz tudo o que ele te permite.

Se tiver algo de que nunca abrirei mão, ou as mãos, é do jornalismo, da verdade e da vontade de ser, dia após dia, um ser humano que cresce com o que vê, aprende com o que ouve e sente o que toca.

Um comentário:

Anônimo disse...

Muito bom Clarissa... e como é bom que existam pessoas que gostam do que fazem, que sonham coisas boas e que buscam sempre o melhor para a vida! SUCESSO!