
Por Cadré Dominguez - Professor de Jornalismo Ufsm-Cesnors
Passar por cima das dificuldades. E elas sempre - diariamente - vão colocar-se na sua frente. Não tem jeito. Elas são onipresentes. Problemas e jornalistas andam juntos. Por que é assim que tem de ser? Acredito que sim. Sem conflito, o jornalismo se esvazia de sua função social. Não que ser jornalista seja um recolher eterno de conflitos. Nem sempre. Mas, na maioria das vezes sim.
O repórter de verdade, daqueles que fareja notícias pelas ruas em situações de aparente nornalidade, sabe que as relações humanas são movidas por vaidades, alegrias, medos, anseios, divertimentos. E a busca por estes sentimentos ou os fatos que decorrem deles, muitas vezes, são permeados por problemas e conflitos.
E a dificuldade do jornalista - diária - é entrar nestes mundos munido apenas de sua bagagem cultural e um bloquinho de anotações. Mesmo no mundo da convergência entre televisão, internet e rádio existe aquele momento de contato direto do repórter e a fonte. E neste ponto, existem dificuldades. Muitas. As pessoas entrevistadas não querem falar, não confiam no repórter, não falam a verdade, evitam assuntos espinhosos, confundem fatos distintos, tiram proveito pessoal da situação, revelam interesses escusos ou escondem interesses inconfessáveis. E por ai vai. Todo mundo tem uma história.
E a maneira como estas dificuldades são superadas é que revelam de que é feito o repórter. É um mundo sútil e nebulosos. Uma teia de interesses, complexa e de difícil compreensão para quem olha de fora. Mas o repórter consegue. Mostra a sociedade aquilo que ela não vê ou busca não enxergar. E só faz isso se trabalha muito. É o que se chama de apuração. Pode levar dias. Mas se obtém um relato coerente sobre o acontecido.
Qualquer acontecimento pode ser relatado pela técnica jornalística. Depende só do repórter.
Para piorar, além de tudo que cria dificuldades para o lado de fora da redação, somam-se os problemas e desafios internos de trabalhar em uma empresa (na maioria das vezes privada) que tem uma direção administrativa com interesses próprios, balizados pelo mercado. A batalha interna - também diária - de conseguir espaço, estrutura, equipamento, tempo, horas de trabalho para produzir o melhor conteúdo jornalístico é tão árdua quanto a externa. Não, não é fácil ser jornalista. Mas é muito bom.
É bom para quem é curioso. É bom para quem é crítico. É bom para quem quer entender como as coisas acontecem. Como as pessoas reagem a ciranda de acontecimentos que afetam suas vidas. É bom para quem sabe quem existem muitas pessoas que não são ouvidas e que muitas histórias não são contadas. É bom para os que não desistem.
E existem cursos de jornalismo. Eles tem a inglória missão de preparar em exíguos quatro anos um jovem de 18 e poucos anos para trabalhar neste cenário. Dotá-los de subsídios teóricos e práticos que lhe forneçam instrumentos para sobreviver a força bruta da vida real. E publicar relatos que afetam a vida de milhares (as vezes milhões) de pessoas. Que podem transformar a vida de um Zé Ninguém no centro das atenções nacionais, estaduais ou municipais. As vezes, até mundial. Que podem significar o atendimento público digno para quem precisa de saúde, educação, esporte, ambiente, emprego. Pode até significar comida para quem tem fome.
E os sábios senhores de Brasília influenciados pelos todos poderosos donos de empresas de comunicações, associações de sabe lá o quê com sabe lá quem, querem diminuir o tamanho dos cursos de jornalismo. Que sejam apenas dois anos, propôs o Ministro da Educação Fernando Hadad, pois o que importa é a liberdade de expressão. Por conta dos mesmo lobby sombrio, está com o Supremo Tribunal Federal a decisão da manutenção ou não da obrigatorieddae do diploma para exercer o ofício de jornalista. É difícil. É muito difícil ser jornalista. Mas é muito bom, por que se não assim fosse os esqueletos continuariam dentro do armário e a sujeira eternamente seria varrida para dentro do tapete.
Ser repórter é nunca dizer nunca. Nunca dizer sempre.
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