5 de junho de 2012

vinhos.


"a felicidade de ter uma garrafa de vinho só para mim é proporcional
a tristeza de não ter com quem dividir a alegria que ela me trás" 

a chuva. as pessoas.

"As pessoas são como a chuva. Aparecem as vezes levando, sempre, consigo alguma coisa. Mas, ao mesmo tempo, deixam um pouco de si que fortalece e faz brotar. Por hora se ausentam, fazem falta. Em outras saturam, enjoam. E nunca são iguais. Nunca deixam os mesmos rastros. Por vezes atormentam, noutras aliviam, mas em muitas delas matam nossas vontades. Até a próxima".

22 de maio de 2012

Quem avisa amigo é...

por Mário Sergio Cortella

Tristes tempos! Vivemos numa época de interesses recíprocos, atravessamos um período de pragmatismos mútuos, nos quais as regras da competitividade mortal e de uma base econômica idólatra e implacável nos mecanismos de exclusão, impõe valores gananciosos! Uma norma principal ganha corpo: é bom tudo o que for útil, é adequado tudo o que for lucrativo, é moralmente confortável tudo o que for vantajoso. O princípio central da convivência passa a ser o inesgotável “Uma mão lava a outra”.

A amizade também não conseguiu escapar muito dessa avassaladora pressão; poucas são as relações interpessoais que fogem ao utilitarismo das afetividades simuladas. Cada vez mais temos amizades fugazes, com data de validade restrita; as pessoas vão e vêm rapidamente, acumulando-se uma série de perdas sem que ganhos subjetivos se fortaleçam. Mais e mais conhece-se muita gente e sustenta-se com fragilidade o aprofundamento dessas relações; coloca-se como orientação básica do “mundo dos negócios” (a invadir o tecido social) a necessidade de ampliar ao máximo o número de contatos, sem que, de fato, essas aproximações signifiquem uma intenção de permanência e dedicação. Usa-se com facilidade a palavra “amigo”, em vez de, honestamente, fazer valer as expressões “colega” ou ”conhecido”

Chega-se, inclusive, a uma situação mais defensiva: aqueles e aquelas que recusam qualquer forma de envolvimento nas afeições e na camaradagem, supondo, com densa carga de razão, ser difícil separar o que é uma lealdade sincera e amiga de uma simpatia forjada e circunstancial. A própria idéia de confraternizar, isto é, de estar “entre fraternos”, fica sutilmente obscurecida pela concepção de que é fundamental fazer “network” para poder estar sempre entre os emergentes sociais e laborais, em vez de afundar no destino dos meros sobreviventes.

Sem desejar produzir um recurso à nostalgia tola, é saudável lembrar: bons tempos aqueles nos quais se podia acreditar no que Aristóteles, já no século 4 a.C., afirmava na Ética a Nicômaco: ”a amizade é uma alma com dois corpos”. Parece que o ideal aristotélico vem sendo superado por uma perspectiva muito bem expressa pelo, eventualmente satírico, filósofo francês Montesquieu: “A amizade é um contrato segundo o qual nos comprometemos a prestar pequenos favores para que no-los retribuam com grandes”.

É claro que continuam persistindo as amizades duradouras, aquelas que, passados meses ou anos, tem-se a sensação de que a distância temporal não valeu, a intimidade permanece viva e o apoio irrestrito prossegue incólume; afinal, como refletia Jean Cocteau, sensível poeta e diretor de grandes clássicos do cinema francês, “a felicidade de um amigo deleita-nos, enriquece-nos, não nos tira nada. Caso a amizade sofra com isso, é porque não existe”.

É por isso que Chamfort, em obra póstuma chamada Pensamentos, máximas e anedotas (publicada em 1795, pouco depois do suicídio em Paris) afirmava que “neste mundo temos três espécies de amigos: aqueles que nos amam, aqueles que não se preocupam conosco, e os que nos odeiam”. A mesma idéia desponta no século seguinte, com a característica ironia irlandesa de Oscar Wilde: “Toda a gente é capaz de sentir os sofrimentos de um amigo. Ver com agrado os seus êxitos exige uma natureza muito delicada”.

Ainda tem de valer o ditado italiano Amicizia que cessa non fu mai vera, isto é, em pura tradução mais livre, “Amizade que acaba nunca principiou”...

20 de maio de 2012

o mundo anda tão desconfiado.

que confiança é a base dos relacionamentos todos sabem.
que relacionamentos se formam todos os dias, em todas as horas, em qualquer lugar. também.
(vejamos relacionamentos aqui como: amizades, namoros, casamentos ou simples trocas de favores)

já dizia Carlos Drummond de Andrade que "A confiança é um ato de fé".
confiança é o sentimento mais lindo para expressar amor, amizade, consideração.

certa vez ouvi uma pessoa dizer que confiava em todo mundo, e que isso só mudaria ao passo em que elas fossem traindo seu sentimento de crer.
o problema é que nem todos pensam assim.
nem eu.
provavelmente nem você.

a palavra da vez é: desconfiança.
desconfia-se de que quem te ama apronte.
desconfia-se de que teu amigo fala mal de ti pelas costas.
desconfia-se que teu cliente compre na concorrência sempre que tem oportunidade.
desconfia-se que teu cachorro prefira o terreno do vizinho.

infelizmente desconfia-se, até, de que o sorriso lançado a moça do caixa do mercado seja pura ironia.

hoje não há espaço para a simpatia sem desconfianças.
não há porque pensar que alguém te ligou para saber se tu estavas bem. ela apenas precisava de um favor e foi simpática para consegui-lo.

desconfiança é triste.
vai, aos poucos, matando tudo o que se construiu.
é como uma torneira que pinga.
por vezes pode significar pouca coisa.
até perceber que o balde abaixo dela ficou cheio.

desconfiar é mais que não confiar.
é mostrar-se incapaz disso.
e mais.
é querer ser melhor pelo simples prazer de saber que,
quando se desconfia não há como ser enganado.

desconfiança é o pior dos sentimentos porque não te faz abrir mão de nada.
não te acrescenta.
não te transborda.

ele te faz sofrer.
não dormir.
ter borboletas no estômago,
e perder a confiança em si próprio.

quem aceita estar com uma pessoa em que não confia não merecia nem a oportunidade.

"A confiança que temos em nós mesmos, 
reflete-se em grande parte, 
na confiança que temos nos outros"

François La Rochefoucauld

confusões.

coloquei no player um som inspirador para tocar.
a televisão não é boa companhia para quem precisa escrever.
outra má companhia para quem quer pautar algumas coisas é a confusão de ideias.


confusão.
coisa triste quando não se encontra a luz do fim do túnel que tanto se procura.
por vezes pode até ser divertido rodar de um lado a outro.
entrar na brincadeira de se perder. de não ligar o cronometro e ver quem faz o trajeto em menos tempo.
sim. é bom. por vezes apenas.
noutras é importante achar a seta riscada no chão que te indica o caminho perfeito.

mas quem somos nós em exigi-la estar sempre ali?
precisamos traçá-las, vez em quando.
só que agora não consigo.

não tenho nos bolsos um mapa, nem em minhas mãos um pedaço de giz.
estou no escuro, sem lanterna e com a sensação de que girei incansavelmente sobre um mesmo ponto até sentir a tontura me consumir.
não acredito no que não vejo.
meu senso de direção nunca foi bom.

então sento e espero a vertigem passar.
não tenho mais me preocupado com o tempo,
ele deixou a tempo de ser fator determinante.
acho justo, e bem pago, se ao menos desse lugar conseguir fugir.
a sensação de estar perdida não conforta.
pelo contrário.
dá náuseas.

caio no sono.
não porque desisti.
na verdade ele é meu melhor combustível.
adiar a chegada as vezes dá certo.
faz com que eu consiga analisar melhor os obstáculos que o escuro me escondeu.
e mesmo não vendo nada. sinto-os.

percebo que estou ficando louca.
ficar muito tempo sem rumo certo não parece a melhor opção.
agora é como se eu fosse um ponto branco no meio de um açucareiro.
me faço parte do escuro.
não me vejo mais.
não me sinto.
adormeço, de novo.

e me debato.
e suo.
e sinto calor.
e sinto frio.
estou imóvel.

é quando levo um susto, e acordo.
e vejo que aquilo foi um sonho.
um pesadelo, quem sabe.

o importante é pensar que aquilo pode não ter acontecido.
ou sim.
seria bom se acordar fosse o remédio para todas as dores.
mas não é.
dormir apenas adia em algumas horas tua angústia de estar num lugar em que era preferível não estar.
fora da zona de conforto que tua cama, inocentemente, se transforma.

e se vida fosse um cama, seria melhor?
estar preso a algo confortável te faz forte?
te faz. no minimo. covarde.

e por mais que doa.
que possa latejar.
eu prefiro levantar.
e colocar a armadura contra o dia que vai me fazer sofrer,
mais uma vez.

porque sofrer é a melhor fatia do bolo chamado vitória.

14 de maio de 2012

palavras são inúteis.


por: Ivan Martins 
Todas as quartas-feiras no Época

A gente cresce acreditando no poder das palavras. Desde criança, nos dizem que, conversando, seremos capazes de acertar qualquer coisa, de resolver qualquer situação. Infelizmente, não é verdade. Quando se trata de relacionamentos, as palavras são inúteis.

Os sentimentos apaixonados que nos ligam a alguém não são criados por palavras. Os desentendimentos que aos poucos ou de súbito nos separam da pessoa não são provocados por palavras. Os sentimentos de perda, dor e morte causados pelas rupturas tampouco são remediados por palavras. As palavras descrevem, celebram, exaltam e lamentam nossas paixões, mas não são responsáveis por elas. Quando se trata de amor, as palavras são inúteis.

Não obstante, nós falamos. Cultivamos a ilusão de que o outro pode ser envolvido, seduzido, convencido pela nossa retórica. Acreditamos, fundalmentalmente, que o nosso desejo pode ser transmitido pela palavra. Por isso, telefonamos, mandamos mensagens, escrevemos longos emails, rabiscamos poemas, fazemos letras de música, marcamos conversas dolorosas e intermináveis que – a rigor – não levam a lugar nenhum.

Quando existe um sentimento comum, as palavras são apenas acessórias. Quando não há sentimento, elas agem como um bisturi: cortam, expõem e dilaceram, mas não criam.

Tenho a impressão de que aquilo que liga dois seres humanos existe além das palavras. Uma magia de natureza física ou psíquica dita que Fulana é atraída por Sicrano ou vice-versa. Isso acontece de forma instantânea, ou pode ser construído lentamente, mas não sobre o alicerce das palavras. As palavras são apenas a aparência do que nos liga. Quando as pessoas conversam, trocam entre si códigos que vão além do que elas dizem. Há os olhos, as mãos, o corpo e a voz, que sinalizam uma espécie de todo invisível. Há um conjunto de sinais nos quais um se expressa e o outro se reconhece – e deseja, ou não deseja. O sentido das palavras nessa troca é secundário. A mensagem profunda sobre quem se é já foi passada antes.

Se isso não nos parece tão claro é porque vivemos num universo revestido de palavras. Temos a sensação de que elas iniciam e finalizam todos os atos, mas não é assim. As palavras são apenas sintomas. Quando as pessoas se conhecem e se apaixonam, conversam da mesma forma como se beijam, com fúria e com encantamento. No final, quando tudo acabou, as palavras doem e escasseiam. Elas são repelidas pelo outro da mesma forma que o toque, igual que o olhar. Temos a impressão de estar encerrando o amor com as palavras, mas elas são apenas as flores do enterro. Quando chegamos a elas, o desejo está morto.

Infelizmente, os ciclos de paixão e rejeição não são simultâneos. Eu ainda estou cheio de palavras doces, mas você não quer mais ouvi-las. Ou eu me dirijo a você com palavras de desejo e prazer, mas elas deixaram de fazer sentido. Se você não sente mais o que eu sinto, não vai entender o que eu digo. Nem será tocada pela magia das minhas palavras, que se tornam inúteis. Quantas das nossas conversas não são trocas de palavras inúteis? Tentamos transpor com elas o abismo da indiferença do outro. Explicamos, sugerimos, argumentamos - inutilmente.

Então, economize palavras. Fique quieto e preste atenção. Escute o que ela não diz. Entenda o que ele nem falou. Os gestos contam coisas, os olhares antecipam. Atitudes valem mais do que declarações de amor – e não podem ser substituídas ou consertadas por palavras.

11 de maio de 2012

em constantes distâncias.

não é fácil viver sob a mira da distância.
não é legal viver pensando em como seria se não fosse assim.

a distância nos tira muitas possibilidades, entre elas,
a mais importante de todas,
a de conhecer.

quando se vive distante de quem se ama,
falta a magia da convivência e, por consequência, a conquista da harmonia.

quando se mora a distância do lugar que te fazia bem,
se perde a possibilidade de encontrar novos pontos de encontro.
com a memória.
com os amigos.
com o silêncio.
[ porque o silêncio encanta, sim ]

quando se vive distante de seus sonhos,
dá-se margem para as desculpas de não realizar aquilo que se deseja.
o tempo. as horas. os dias. e, os medos.

a distância atrapalha.
não dá espaço para a conquista diária.
torna tudo sonhos longínquos.
deixa inacessível.
faz doer.

dizem que a distância é como o vento.
aquele blá blá blá todo de que aumenta as grandes chamas e apaga as pequenas.
não é bem assim.

a distância é a falta de oxigênio.
te deixa ofegante de ansiedade.
e sem oxigênio, não há fogo que viva.

a distância é um castigo.
um crime que se paga de longe.
só vendo, sem direito a toque.

a distância faz tua cabeça pirar.
teu corpo morrer aos poucos.
te deixa a merce. a deriva.
te deixa louca de vontade de viver,
com uma corda em volta do pescoço.

a distância só não mata, porque não é possível dar o tiro certeiro.
ela te deixa cego, surdo e mudo.
te faz viver no automático.
e só.